Artista: Urias
Álbum: Urias - EP
Ano: 2019
A análise de hoje é sobre uma figura emblemática e bastante talentosa que traz em suas composições não só entretenimento, mas também mensagens fortes.
Letra:
U-RI-AS
Muito prazer, eu sou o oitavo pecado capital
Tente entender, eu sempre fui vista por muitos como o mal
Não consegue ver, que da sua família eu sou o pilar principal?
Possuo você, possuí você
Our God’s gonna come down and rapture his people and take them up in the sky
Sua lei me tornou ilegal, me chamaram de suja, louca e sem moral
Vão ter que me engolir por bem ou por mal
Agora que eu atingi a escala mundial
Navalha debaixo da língua, tô pronta pra briga
Navalha debaixo da língua
Somebody's gonna have to tell the truth, and I'm gonna tell it!
Diaba, argh
Diaba, argh
You gotta know the truth, 'cause the truth'll set you free
Não sou nova aqui, não te peço licença
Sua permissão, nunca fez diferença
Com toda educação, foda-se sua crença
Foda-se sua crença, ah
Navalha debaixo da língua, tô pronta pra briga
Navalha debaixo da língua
Diaba, argh
Diaba, argh
Análise:
A música diaba em sua mensagem carrega as vivências e mazelas que as mulheres trans são submetidas pelo falso moralismo da sociedade.
O eu-lírico (enquanto mulher trans) se apresenta como um oitavo pecado capital, algo totalmente diferente dos 7 originais (luxúria, ira, gula, avareza, preguiça, inveja e soberba), essa representação acho muito válida uma vez que o eu-lírico fala que sempre foi vista por muitas como o mal e que de muitas famílias é o pilar principal, visto que dentro da realidade brasileira, o brasil é um dos país que mais mata mulheres trans ao mesmo tempo que possui um alto consumo de pornografia trans, nesse caso os corpos trans possuem física e mentalmente as pessoas.
a música também conta com inserções de um sermão usado em igrejas, trazendo para a mensagem que muitas pessoas cegas pela religião conseguem prejudicar milhares de vidas, por um ódio que nem eles entendem ao mesmo tempo que dizem pregar o amor, sendo essa a lei que tornou o eu-lírico ilegal, mas como o novo sempre vem e as pessoas trans estão ocupando cada vez mais seus espaços de direito, os falsos moralistas terão que a engolir por bem ou por mal.
A navalha no trecho vem como um símbolo de empoderamento onde o eu-lírico afirma estar pronta para brigar pelo seu lugar (curiosamente, em algumas décadas passadas a navalha/gilete usada por pessoas trans e afins, não era para ferir possíveis agressores, mas sim afim de se cortar para afugentar possíveis agressores uma vez que acreditavam que pessoas LGBT possuíam o vírus do HIV e que ter contato com o sangue era totalmente infeccioso).
O eu-lírico nesse trecho traz uma mensagem muito forte sobre a questão da visibilidade trans e religião, uma vez que pessoas trans não são novidades na sociedade e que as mesmas não dependem de permissão de ninguém para existirem e que a religião alheia deve ser seguida por quem acredita nela e não se imposta a todos.
Nota: No trecho "não sou nova aqui, não te peço licença" também pode ser uma referência ao cover "Meu Mundo é o Barro" da banda O Rappa que a cantora Urias ressignificou trazendo uma vivência trans e que dizem, não ter agradado aos donos originais e que pediram a remoção da mesma das plataformas.
Com isso, Diaba é uma letra simples, porém complexa e possuí diferentes camadas, uma vez que o discurso evangélico sobre arrebatamento e conhecer a verdade são apenas cortinas de fumaça para a manutenção de opressão daquilo que consideram ilegal, imoral, no caso de mulheres trans sendo vistas por essas pessoas como diabas.

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