segunda-feira, 12 de junho de 2023

Ismália - Emicida

Gênero: Rap/ Hip-hop
Artista: Emicida
Álbum: AmarElo
Ano: 2019


Eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros do segundo semestre de 2019 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. AmarElo é um álbum que aborda de forma concisa as problemáticas da sociedade em relação as vidas negras.

Letra:

Com a fé de quem olha do banco a cenaDo gol que nós mais precisava na traveA felicidade do branco é plenaA pé, trilha em brasa e barranco, que penaSe até pra sonhar tem entraveA felicidade do branco é plenaA felicidade do preto é quase
Olhei no espelho, Ícaro me encarou:"Cuidado, não voa tão perto do solEles num guenta te ver livre, imagina te ver rei"O abutre quer te ver de algema pra dizer:"Ó, num falei?!"
No fim das conta é tudo Ismália, IsmáliaIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaQuis tocar o céu, mas terminou no chãoIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaQuis tocar o céu, mas terminou no chão
Ela quis ser chamada de morenaQue isso camufla o abismo entre si e a humanidade plenaA raiva insufla, pensa nesse esquemaA ideia imunda, tudo inundaA dor profunda é que todo mundo é meu temaPaisinho de bosta, a mídia gostaDeixou a falha e quer migalha de quem corre com fratura expostaApunhalado pelas costaEsquartejado pelo imposto impostaE como analgésico nós posta queUm dia vai tá nos conformeQue um diploma é uma alforriaMinha cor não é uniformeHashtags #PretoNoTopo, bravo!80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvoQuem disparou usava farda (Mais uma vez)Quem te acusou nem lá num tava (Banda de espírito de porco)Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada:Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada
Olhei no espelho, Ícaro me encarou:"Cuidado, não voa tão perto do solEles num guenta te ver livre, imagina te ver rei"O abutre quer te ver drogado pra dizer:"Ó, num falei?!"
No fim das conta é tudo Ismália, IsmáliaIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaQuis tocar o céu, mas terminou no chãoTer pele escura é ser Ismália, IsmáliaIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaQuis tocar o céu, mas terminou no chão(Terminou no chão)
Primeiro cê sequestra eles, rouba eles, mente sobre elesNega o deus deles, ofende, separa elesSe algum sonho ousa correr, cê para eleE manda eles debater com a bala que vara eles, manoInfelizmente onde se sente o sol mais quenteO lacre ainda tá presente só no caixão dos adolescenteQuis ser estrela e virou medalha num boçalQue coincidentemente tem a cor que matou seu ancestralUm primeiro salárioDuas fardas policiaisTrês no banco traseiroDa cor dos quatro RacionaisCinco vida interrompidaMoleques de ouro e bronzeTiros e tiros e tirosO menino levou 111Quem disparou usava farda (Ismália)Quem te acusou nem lá num tava (Ismália)É a desunião dos preto junto à visão sagaz (Ismália)De quem tem tudo, menos cor, onde a cor importa demais
"Quando Ismália enlouqueceuPôs-se na torre a sonharViu uma lua no céuViu outra lua no marNo sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luarQueria subir ao céuQueria descer ao marE num desvario seuNa torre, pôs-se a cantarEstava perto do céuEstava longe do marE, como um anjoPendeu as asas para voarQueria a lua do céuQueria a lua do marAs asas que Deus lhe deuRuflaram de par em parSua alma subiu ao céuSeu corpo desceu ao mar"
Olhei no espelho, Ícaro me encarou:"Cuidado, não voa tão perto do solEles num guenta te ver livre, imagina te ver rei"O abutre quer te ver no lixo pra dizer:"Ó, num falei?!"
No fim das conta é tudo Ismália, IsmáliaIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaQuis tocar o céu, mas terminou no chãoTer pele escura é ser Ismália, IsmáliaIsmália, IsmáliaIsmália, IsmáliaQuis tocar o céu, mas terminou no chão(Terminou no chão)Ismália(Quis tocar o céu, terminou no chão)


Análise:

Emicida em mais uma de suas obras traz diversas referências em sua composição, mas a principal está no título da música, Ismália é um poema de Alphonsus Guimarães, onde as vivências negras são comparadas a personagem que dá nome ao poema.


A música começa com o eu-lírico nos colocando dentro de um imaginário de uma partida de futebol (uma das paixões nacionais), aqui faço um paralelo com a união que partidas de futebol podem causar, porém dentro desse contexto a bola na trave são as vivências negras que sempre que estão prestes a avançar em algum aspecto social, acaba tendo a frustração semelhante ao gol falho, pois como bem retrata o eu-lírico, a felicidade branca é plena diante as questões raciais e por mais que existam pessoas negras que possam estar no mesmo patamar social, ainda assim sua felicidade não será completa, pois as estruturas do racismo estrutural estará presente aonde quer que pessoas negras vá.


Logo após o eu-lírico faz uma ligação entre a tragédia grega de Ícaro (Que para sair do labirinto do Minotauro com o seu pai, criou asas de cera e tomado pela sensação de liberdade o mesmo voou perto demais do sol que acabou por derreter suas asas levando o mesmo a morte) e a vida do mesmo, onde a sua ascensão são as asas de cera e que devemos ter cuidado, pois quanto mais alto voamos, mais perto estamos do sol (sociedade racista), sendo assim, essa escalada terá sempre alguém tentando te jogar no chão. O abutre também pode ser interpretado como o sistema que contribui para as altas taxas de encarceramento da população negra o que acaba por normalizar/banalizar esse grupo social.


O eu-lírico então, compara a tentativa de ascensão negra a personagem Ismália do poema de Alphonsus Guimarães, que assim como ela quis tocar o céu (algo considerado impossível) e terminou no seu fim trágico (chão).


"Ela quis ser chamada de morena", é o verso que abre a passagem lírica, o termo "morena" é um resultado de uma política de branqueamento (mito da democracia racial), onde o sujeito negro é tão rebaixado, que se declarar enquanto pessoa negra/preta se torna algo carregado de uma sensação negativa que a pessoa prefere ser tratada por outros termos para se distanciar desse sentimento. Por essa razão, é colocado ao sujeito branco a característica de humano pleno, pois em uma sociedade racista as relações sociais seguem uma hierarquia sob o prisma étnico super valorizando o branco e rebaixando o preto. Por essa razão, é colocado ao sujeito branco a característica de humano pleno, pois em uma sociedade racista as relações sociais seguem uma hierarquia sob o prisma étnico super valorizando o branco e rebaixando o preto.


Ao tomar consciência das agressões sociais é normal sentir raiva, pois existe uma diferença abissal entre o "quase" e "pleno" que abre a composição.


Para o eu-lírico tudo se torna o seu tema, pois é difícil não enxergar essas mazelas e por trás de vários discursos de igualdade, é possível perceber que ainda existe diferenciação, a mídia tem um fator determinante nesse sentido, pois é ela que em sua maioria determina o que é certo ou é errado, sem falar na sua exposição para a criminalização da pobreza que acaba criando os ditos jornais sensacionalistas onde só mostra as facetas da criminalidade envolvendo em sua maioria pessoas pobres e pretas.


No meio de todo esse caos a esperança ela surge como uma forma de analgésico e com a popularização das redes sociais criam-se bolhas de que acreditam que tudo está caminhando para mudanças, e subindo hastgas como a da música #pretosnotopo, quando na verdade as coisas continuam as mesmas. O diploma aqui também tem uma simbologia muito forte, ao ser comparado a uma carta de alforria (de que o conhecimento pode libertar, transgredir e revolucionar) permitindo que corpos negros sejam libertos dos subempregos (o que sabemos que não é a realidade), e que a cor preta se torne uniforme, já que o sujeito branco não é racializado (universal/uniforme) enquanto o sujeito preto é racializado (não universal/não uniforme), o que também aborda as questões do identitarismo que em sua maioria faz o oposto de uniformizar a cor.


Ao mesmo que tempo que hastags como pretos no topo são levantadas para a valorização dos corpos negros, o eu-lírico traz a tona a realidade de muitos pretos: 80 tiros (referente a morte do músico Evaldo Rosa e do Catador Luciano Macedo por militares no Rio de Janeiro) nos faz lembrar que existe uma diferença entre pele alva (clara) e pele alvo (escura) e muita dessa violência vem daqueles que usam fardas (os policiais, que supostamente deveria proteger as populações vulneráveis), o eu-lírico também crítica as pessoas que seguem nesse fluxo de narrativas racistas, pois quem atirou usava farda como vimos anteriormente e quem acusou lá não está, esses acusadores são em muitas das vezes a mídia e pessoas que tentam deslegitimar a vítima criando uma narrativa e associação das vítimas com o crime (Marielle Franco) ou que tenha passagem (Caso do Carrefour) como se fosse uma justificativa para a pessoa ter sofrido aquela violência, fazendo com que mais uma vez o corpo negro morto, seja apenas mais um entre vários tornando esse tipo de gente um "bando de espírito de porco".


O eu-lírico compara o corpo preto morto igual as músicas que são sucesso nas plataformas, geralmente são músicas com sonoridade, mas pobre em letra, apenas para ser consumida em festas e não trazer reflexões, e é assim que muitos corpos negros são tratados diante a violência que os atinge, pois existe um mercado que lucra com essas mortes (necropolítica).


Mais uma vez a símbolo de Ícaro é trazido sobre a visão de que o abutre agora quer ver os corpos negros nas drogas para alimentarem mais uma vez essa narrativa de que pretos são drogados e que o combate às drogas, são um combate aos corpos negros. O que faz com que esse trecho dialogue com o anterior onde os corpos negros são sempre vistos como agentes de crimes.


No fim, as lutas por igualdade racial, nos leva a comparação a Ismália, que ao tentar nos levantar somos jogados no chão.


Emicida consegue abarcar em suas composições várias referências históricas e literárias como já vimos pelo título da música e também pelo que já foi abordado. Ele traz também uma abordagem sobre o processo de colonização/escravidão. Sequestra as pessoas, rouba suas riquezas, histórias, culturas, inventa mentiras para continuar com a manutenção da escravidão, nega suas religiões (dizendo que umbanda e afins são religiões do diabo), ofensas são proferidas e por fim, a separação dos povos escravizados para que não tenha união, já que as línguas se diferem resultando assim em uma dificuldade de organização e revolta. Que também são temas muito pertinentes atualmente, já que pessoas negras em sua maioria também não são unidas já que existe uma narrativa dominante que faz as pessoas querer se distanciar de qualquer movimento de luta por igualdade (os famosos mimi, vitimismo, racismo reverso e etc.).


Mesmo diante a tais mazelas se alguém ousar a sonhar, esse sonho pode ser interrompido pelo disparo de uma arma, já que contra muitas pessoas negras a única linguagem utilizada é a violência armada.


"Onde se sente o sol mais quente", ironicamente, são as regiões de clima quente que possuem uma grande concentração de vidas negras, em termos de Brasil, a população negra jovem é a que mais morre estando envolvida ou não em ações criminais e nesse tom de ironia, o eu-lírico aborda a perpetuação daquele pensamento e ação de extermínio negro que existe desde o tempo de escravidão.


Logo após temos uma contagem é realizada até 5, onde dentro da sua narrativa aborda a chacina de Costa Barros no Rio de Janeiro, onde 5 jovens saíram para comemorar o primeiro salário de um deles e que acabaram sendo vítimas da violência policial que efetuaram 111 disparos, mesmo os jovens tendo seguido todas as orientações policiais. Fazendo com que o crime daqueles jovens fossem sua cor e como abutres sempre terão aqueles que ao ver negros baleados irão buscar justificativas para defender o indefensável, fazendo com que corpos negros se tornem um "não lugar".


Seguindo o mesmo raciocínio o eu-lírico também aborda sobre a desunião dos pretos, dentro daquele contexto de separação mencionado acima, onde essa desunião não é um acaso, é um projeto, mas no fim o que importa é a cor, por mais que tenha pretos defendendo as violências aos seus semelhantes isso ainda não o irá eximir de violências racistas, já que a cor é fator determinante para isso.


O poema Ismália se encaixa muito bem a história/mensagem narrada pelo eu-lírico, visto que a torre pode simbolizar uma prisão que leva a personagem a loucura e nesse estado de fragilidade mental a mesma se vislumbra pela lua no céu e a sua imagem no ar e ao querer tocá-la, Ismália encontrou o seu trágico fim. Mas ao relacionar o poema a letra, vidas negras, são postas em uma espécie de prisão social onde a ascensão é para poucos, embora muitos desejam ascender socialmente, porém aqueles que trilham esse caminho para a sua ascensão feito Ismália vislumbrada pela beleza da lua, ao querer tocar o céu, acabam terminando no chão, geralmente por sua vida interrompida, não como um ato suicida feito por Ismália, mas como um ato suicida por querer ter espaço dentro de uma sociedade que rejeita corpos negros.


Mais uma vez, temos a história de Ícaro, porém dessa vez o abutre quer ver os corpos negros na merda. Onde o abutre não quer ver pessoas negras livres para circular em qualquer espaço e que acham que lugar de preto é na cadeia, então resumindo, esse abutre quer ver corpos negros: criminalizados, drogados e na sarjeta.


E por fim, o eu-lírico afirma diante de toda as situações descritas ao longo da composição, que mais uma vez para essa sociedade racista, pessoas negras não passamos de Ismálias.

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